20 séculos de Igreja Cristã

20 séculos de Igreja Cristã
do século I ao século XXI

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

15. A IGREJA E A VIDA MONÁSTICA

“Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou.” (João 17.15-16)

 Qual é a vida que agrada a Deus? Jesus reconheceu que não seria fácil ser seu discípulo e viver neste mundo, pois ele mesmo afirmou que, no mundo, teríamos aflições. No entanto, ele não incentivou ninguém a viver isolado da sociedade, mas afirmou que deveríamos ser “sal da terra” e “luz do mundo”. Como estar no mundo e não ser do mundo tem sido um conflito na vida dos seguidores de Cristo. Houve, porém, um momento na história no qual pessoas começaram a se afastar da sociedade, a qual se achava cada vez mais corrompida (mesmo dentro da Igreja), e a viver isoladamente. Achavam que o cristão verdadeiro se afasta do mundo, abstendo-se do casamento, da família e dos prazeres mundanos. Com isso, esse movimento lançou um novo estilo de se viver o Cristianismo, a vida monástica.
Eremita, ou ermitão, é um indivíduo que vive em um lugar deserto, isolado, geralmente por motivo de penitência ou religiosidade. O termo provém de uma palavra latina que significa "solitário". Os eremitas buscavam refúgio em locais remotos e desabitados, como montanhas e florestas, sua aparência era descuidada, vestiam-se muito pobremente, usavam barba comprida e andavam de pés descalços. Alguns ficavam em pé por horas enquanto oravam e chegavam até mesmo a viver no topo de pilares. O objetivo dos eremitas era o de levar uma vida que imitasse a de Cristo e a dos Apóstolos. O eremita praticava essencialmente a humildade, a paciência, o silêncio, a contemplação, mas tudo levado ao extremo, numa existência que se baseava numa penitência austera e num testemunho da sua fé através da ascese, por vezes radical.
Com a conversão do imperador Constantino em 312, a situação da igreja mudou drasticamente. Os cristãos deixaram de ser minoria perseguida e tornaram-se membros de uma religião que desfrutava de apoio oficial. Grandes multidões começaram a entrar na igreja, a fé se transformou em uma coisa fácil e a sinceridade foi prejudicada. Com isso, muitos optaram por afastar-se do mundo, vivendo isolados da sociedade. Vamos começar conhecendo o primeiro eremita.
Antão, forma familiar de Antônio, nasceu no Egito, provavelmente por volta do ano 250, em uma família próspera, cujos pais morreram quando ele tinha cerca de vinte anos, deixando-lhe toda a herança. Baseado no conselho dado por Jesus ao jovem rico na Bíblia, Antão doou terras, vendeu propriedades e repartiu o dinheiro entre os pobres. Começou a comer uma única refeição por dia e passou a dormir no chão. Antão foi viver em uma caverna, local no qual se sentia assediado por demônios de várias formas. A tentação de voltar ao mundo dos prazeres sensuais era constante, mas Antão persistia em sua luta. Mudando-se para um forte abandonado, onde viveu vinte anos sem ver ninguém, ele recebia comida jogada por cima do muro. Começou, então, a ter seguidores, pessoas que buscavam a sua orientação, tornando-se conselheiro espiritual. Antão morreu com cerca de 105 anos, com aparente vigor físico e mental. Embora insistisse para ser enterrado secretamente, logo um culto surgiu ao redor de sua sepultura. Atanásio escreveu uma obra chamada Vida de Antão, na qual ele é retratado como “o monge ideal, que podia realizar milagres e discernir entre espíritos bons e maus”. Tornou-se um santo do catolicismo.
Monge é uma pessoa devotada à vida monástica e clausural. Existentes em várias religiões do mundo, o monge e a vida monástica estão presentes no Cristianismo desde os primeiros séculos. Os monges católicos, que podem ser clérigos ou leigos, seguem as regras de uma determinada ordem religiosa monástica e residem em mosteiros. Os monges seguem uma vida de desapego aos bens materiais e de contemplação e serviço a Deus. A prática das comunidades de monges que viviam juntos começou com Pacômio, um jovem companheiro de Antão. Como Antão, a maioria de seus seguidores também foi eremita. Por volta do ano 320, Pacômio deu origem ao monasticismo comunal. 
A verdadeira força por trás do monasticismo europeu foi Bento de Núrsia. Nascido no século VI em uma família italiana de classe alta, ainda jovem foi estudar em Roma, cidade que ele considerava como imoral e frívola. Aborrecido com isso, Bento partiu e se tornou eremita, tendo adquirido grande reputação por sua espiritualidade: famílias traziam seus filhos para que fossem treinados por ele na vida cristã. Tornou-se abade, mas enfrentou problemas, tendo que fugir. Por volta do ano 529, Bento se mudou para Monte Cassino, onde mandou demolir um templo pagão para construir um mosteiro em seu lugar. Bento é lembrado não somente pelo mosteiro, mas por causa de “a Regra”, conjunto de normas que deixou para governar aquele lugar. O mosteiro para Bento era uma comunidade autocontrolada e autossustentada, com seus campos e oficinas. Era uma "fortaleza espiritual", para assegurar que os monges não precisassem ir a qualquer outro lugar para satisfazer as necessidades da vida. Roupas, comida e mobília eram manufaturadas dentro do confinamento da comunidade. Após um noviciado de um ano, os que persistissem fariam os três votos que o desligariam completamente do mundo: pobreza, castidade e obediência. Bento criou algo que serviu para orientar comunidades monásticas há vários séculos e sua criação ainda está em vigência atualmente.

Outro mosteiro surgiu quando a igreja enfrentava grandes dificuldades. Numa época de lutas políticas, quando líderes da igreja buscavam poder e terras, William, o Pio, duque de Aquitânia, fundou um mosteiro em Cluny, cidade localizada na Borgonha, século X, local que exerceu profunda influência na cristandade. Era uma sociedade independente, livre das lutas de poder do império e sob a proteção do papa. O mosteiro seguiria a Regra estabelecida por Bento de Núrsia no século VI: pobreza, castidade e obediência. Uma liderança capacitada fez com que Cluny funcionasse adequadamente, multiplicando a ideia em outros lugares, como na França, Itália e Alemanha. Em um movimento de reforma, Cluny foi o lugar que exerceu a maior influência no cristianismo ocidental, liderando cerca de dois mil mosteiros por volta do ano 1110. Cluny teve seu apogeu e seu declínio, sendo mais tarde restaurado pela ordem cisterciense.
A Ordem Cisterciense se origina na Abadia de Cister, em Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, na Borgonha, em 1098. Seus fundadores era monges que haviam deixado a congregação monástica já decadente de Cluny para retornar à antiga regra beneditina. A ordem teve um papel importante na história religiosa do século XII, impondo-se em todo o Ocidente com sua organização e autoridade. Restaurando a regra beneditina, a ordem cisterciense teve em Bernardo de Claraval (1090-1153), homem de excepcional carisma, o grande nome do movimento. 
Outros movimentos foram surgindo na história, como os franciscanos, jesuítas e outros grupos, buscando na vida monástica a solução para o problema do pecado do homem. Os eremitas achavam que o mal estava fora da pessoa humana, no entanto, o próprio Antão era assaltado por visões e tentações mesmo no seu isolamento, mostrando que o mal está dentro de cada ser humano, porque “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Jesus não incentivou o isolamento, mas a ação no meio da sociedade, sendo sal e luz para os demais. Com o advento da Reforma Protestante, os evangélicos deixaram de lado as práticas de conventos e abadias em suas denominações. No catolicismo, muitos dos movimentos e das ordens estudadas se mantêm até hoje. No entanto, o imperativo continua: como igreja, espalhar a mensagem do evangelho a toda criatura, e como indivíduos, influenciar a sociedade sendo sal e luz.
Desde que surgiu na cultura judaica, o Cristianismo se defrontou com ideias opostas, principalmente a elaborada filosofia grega que dominava o Império Romano no qual a Judeia se inseria. Pais da Igreja foram importantes para definir e defender a fé cristã nos primórdios, mas o surgimento de “outros evangelhos” foi inevitável. A Igreja e a heresia será o próximo assunto a ser por nós abordado.

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