20 séculos de Igreja Cristã

20 séculos de Igreja Cristã
do século I ao século XXI

terça-feira, 26 de abril de 2016

44. O PENTECOSTALISMO E A RUA AZUSA

“E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua”. (Atos 2.5-6)

O reavivamento da Rua Azusa foi um movimento de despertamento que ocorreu em Los Angeles, Califórnia. Liderado por William Seymour, um pregador afro-americano, o movimento começou com uma reunião em 1906. O reavivamento se caracterizava por experiências espirituais extáticas, acompanhadas por milagres, cultos de adoração dramáticos, falar em línguas e participação de grupos inter-raciais. Os participantes eram criticados pela mídia secular e por líderes cristãos pelo comportamento considerado ultrajante e não-ortodoxo. Hoje, o reavivamento da Azusa é considerado por historiadores como sendo o primeiro catalizador para a divulgação do pentecostalismo no século XX.
No início do século XX, surgiu William Joseph Seymour (1870-1922), um filho de escravos de pouco mais de 30 anos de idade; acometido de varíola, Seymour ficou cego de um olho e com o rosto marcado,  passando a usar barba para esconder as marcas. Consta que Seymour frequentou uma escola de homens livres, onde aprendeu a ler e escrever. Em 1905, Seymour ouviu a mensagem pentecostal pela primeira vez em Houston, Texas.  Buscou então a escola de Charles Parham (1873-1929) naquela cidade, passando a ser ali um aluno. Por causa das leis de segregação racial da época, ele foi forçado a assistir às aulas no corredor, numa cadeira do lado de fora da sala de aula. Seymour chegou a Los Angeles, na Califórnia, no início de 1906 e pregou na igreja de Julia Hutchins. Tendo pregado no seu primeiro sermão que o falar em línguas era a primeira evidência bíblica do recebimento do Espírito Santo, Seymour foi barrado na igreja pelos anciãos no domingo seguinte, porque ele pregava o que não havia ainda experimentado. Um grupo de pessoas o seguiu e ele passou a promover reuniões de estudo bíblico em uma residência. Após algumas reuniões, um dos integrantes falou em línguas pela primeira vez, seguido por meia dúzia de outros em reuniões seguintes, inclusive Jennie Moore, que mais tarde seria esposa de Seymour. Poucos dias depois, o próprio Seymour falou em línguas pela primeira vez.
As notícias dos acontecimentos circularam rapidamente entre os residentes da cidade de origem afro-americana, latina e branca. Logo as reuniões abrigavam multidões de pessoas falando em línguas, gritando, cantando e pulando. O local das reuniões tornou-se pequeno, forçando o grupo a procurar outro endereço. Alguém que residia na vizinhança descreveu uma reunião da seguinte forma: “Eles gritaram três dias e três noites na época da páscoa. (...) À medida em que as pessoas entravam, elas caíam sob o poder de Deus. (...) Eles gritaram até que os alicerces da casa cederam, mas ninguém se machucou”.
Um prédio na rua Azusa 312, no centro de Los Angeles (originalmente usado por uma Igreja Metodista Africana Episcopal) passou a ser usado. A construção era pequena, retangular, com teto chato, medindo cerca de 220 metros quadrados. Somente uma janela de estilo gótico sobre a entrada principal mostrava que a construção havia sido anteriormente um templo. Sem aparência externa, internamente providências foram tomadas, improvisando-se púlpito e assentos para as pessoas.
As ruidosas reuniões ocasionaram reações por parte da imprensa da época, bem como de outras igrejas evangélicas tradicionais. A publicidade negativa realmente ajudou a trazer mais pessoas: alguma coisa sobrenatural deveria estar acontecendo naquele prédio antigo. No segundo andar da “Missão Apostólica da Fé” havia um escritório e residência de Seymour e Jennie, bem como uma sala de oração. Em maio de 1906, de 300 a 1500 pessoas costumavam se reunir no edifício. Moscas eram constantes nas reuniões, já que o local havia servido como estábulo para cavalos. Homens, mulheres, crianças, pretos, brancos, hispânicos, asiáticos, ricos, pobre, cultos e incultos, pessoas de todas as idades iam para Los Angeles com ceticismo ou desejo de participar. Miscigenação de raças e oportunidade para lideranças femininas no grupo foram apontadas como características positivas do movimento.
O louvor na rua Azusa 312 era frequente e espontâneo, com cultos praticamente em qualquer horário. Entre as pessoas atraídas para o reavivamento, havia também batistas, menonitas, quacres, presbiterianos e membros de outras igrejas. O canto era esporádico e a cappella, e ocasionalmente em línguas. Um observador em um dos cultos escreveu as seguintes palavras: “Não eram usados instrumentos de música. Nenhum coro – os anjos devem ter sido ouvidos por alguns em espírito. (...). Não havia organização eclesiástica por trás das reuniões. Todos os que estão em contato com Deus percebem logo que entram nas reuniões que o Espírito Santo é o dirigente”. O jornal Los Angeles Times não foi tão gentil em sua descrição: “As reuniões são realizadas num casebre decadente na rua Azusa e os devotos de uma doutrina estranha praticam os ritos mais fanáticos, pregam as teorias mais selvagens e se comportam em um estado de louca excitação em seu zelo peculiar. (...) ... a noite se torna horrível na vizinhança pelo alarido dos adoradores, que gastam horas gingando para frente e para trás em uma atitude nervosa de oração e súplica”.
"Fé Apostólica", um jornal mantido pelo grupo, foi publicado no período de 1906 a 1908. Distribuída gratuitamente, a publicação alcançava ministros e leigos ao redor do mundo. Entre os relatos, havia notícias de cegos tendo suas vistas restauradas, doenças curadas e estrangeiros falando outra língua  e sendo entendidos por membros negros sem cultura, que traduziam suas falas para o inglês com “habilidade sobrenatural”.
Às vezes, a pregação consistia da leitura da Bíblia por Seymour e adoradores indo à frente para pregar ou testemunhar, dirigidos pelo Espírito Santo. Não se fazia recolhimento de ofertas, ficando uma caixa de contribuições ao lado da porta para a manutenção financeira da missão. Em geral, 50 a 60 membros frequentavam os cultos regularmente, enquanto centenas e milhares a visitassem constantemente.
O procedimento estranho dos frequentadores da igreja era constantemente criticado por jornais da época e por igrejas tradicionais, por causa do aspecto emocional, uso indevido das Escrituras e perda do foco em Jesus Cristo e centralização no Espirito Santo. Houve mesmo quem quisesse fechar os trabalhos da missão. Por volta de 1913, o reavivamento na rua Azusa havia passado do seu momento de apogeu e em 1915 a maioria da mídia e da atenção das multidões havia diminuído. Houve muitos missionários enviados ao exterior e, em 1908, o movimento já havia se espalhado por mais de 50 nações, incluindo a Grã-Bretanha, Escandinávia, Alemanha, Holanda, Egito, Síria, Palestina, África do Sul, Hong Kong, China, Ceilão, Índia e Brasil.
Mais de 500 milhões são membros dos grupos carismáticos hoje, sendo o reavivamento da Azusa comumente considerado como o início do moderno movimento pentecostal.

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