“Os sacrifícios para
Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e
contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmo 51.17)
Não se sabe exatamente quando o cristianismo se estabeleceu nas Ilhas
Britânicas, mas é certo que já existia antes do século III, possivelmente a
partir de missionários fugidos das perseguições às quais os primeiros cristãos
estavam sujeitos. Os primeiros registros da presença cristã nas Ilhas
Britânicas foram feitos por Tertuliano, no ano de 208 d.C.; também no Concílio
de Arles, realizado em 314 d.C. na França, há registro da presença de três
bispos de uma Igreja que existia na Inglaterra sem ligação com a Igreja Romana.
A primeira Igreja Cristã organizada nas Ilhas Britânicas é de origem
celta, povo que já habitava a região antes mesmo da invasão anglo-saxônica.
Resistindo ao paganismo dos invasores, a Igreja Celta conseguiu manter um
cristianismo independente, com organização monástica e tribal, sem relação com
a Igreja de Roma e demonstrando alguns hábitos e costumes orientais.
No ano de 595 d.C., o papa Gregório Magno mandou o monge Agostinho,
prior do Convento de Santo André, na Sicília, liderando um grupo de monges
beneditinos, para converter a Inglaterra ao catolicismo romano. Agostinho foi o
primeiro arcebispo da Cantuária (em inglês, Canterbury), sé primaz de
referência até mesmo para a atual Igreja Anglicana. Com o tempo, boa parte dos
costumes da Igreja Celta assimilou a forma romana do cristianismo implantada
por Agostinho nas Ilhas Britânicas.
No século XIV, surgiram João Wycliffe e os seus seguidores, os lolardos,
contemporâneos ao “Grande Cisma” da Igreja Católica, marcando uma tradição de
profundo apreço pelas Escrituras e questionamento de dogmas e práticas da
igreja medieval com base nas mesmas. O assim chamado “pré-reformador”
patrocinou a publicação da primeira Bíblia em inglês, que se completou em 1384.
Wycliffe afirmava ainda a suprema autoridade das Escrituras, definindo a igreja
verdadeira como o conjunto dos eleitos e questionando dogmas católicos, como o
papado e a transubstanciação. Mesmo na época da Reforma, ainda havia indícios
da presença dos lolardos na Inglaterra.
Ligada à Irlanda, existe ainda a história de Patrício, em cuja vida é
difícil separar-se a realidade do mito. Nascido num povoado na Inglaterra em
377 em uma família religiosa e influente, Patrício foi levado de sua casa para
viver como escravo na Irlanda. Assim que chegou ao novo país, começou a
pastorear ovelhas, tornando-se exímio pastor. Orando constantemente por sua
libertação, Patrício, depois de seis anos de escravidão, fugiu para a Gália,
entrando para um mosteiro. Sagrado bispo em 432, Patrício pediu para ser
enviado como missionário para converter o povo irlandês ao cristianismo. Muitas
fadigas, sacrifícios e sofrimentos de toda espécie resultaram em um grande
número de conversões. Após trinta anos de pregação, existiam na Irlanda 365
igrejas, além de conventos e escolas. Patrício morreu aos 84 de idade, 34 dos
quais como missionário. 17 de março, data da suposta morte de Patrício, é o Dia
de São Patrício, comemorado por irlandeses, ingleses e seus descendentes na
América, sendo a cor verde e o trevo de três folhas as marcas características
do evento.
A história da atual Igreja Anglicana começa com o rei Henrique VIII
(1509-1547), embora ele não fosse um reformador, mas alguém levado por motivos
mais político-conjugais do que religiosos. Casado com Catarina de Aragão, filha
de Isabel e Fernando (os “reis católicos” da Espanha), o rei ansiava por um
herdeiro masculino, que ocupasse o trono inglês com sua morte. Com Catarina,
Henrique tinha tido apenas uma filha, Maria, e o rei pleiteou junto ao papa a
anulação do casamento. Diante da negativa papal, Henrique, até então um
católico devoto (a ponto de ter recebido do papa o título de Fidei
Defensor, ou "Defensor da Fé", por sua ação contra a reforma
protestante em 1521), promoveu a separação entre a Igreja da Inglaterra e a
Igreja Católica Romana. A cisão se deu através do Ato de Supremacia, de 1534,
que inclusive confiscou todas as propriedades que a Igreja Católica possuía na
Inglaterra. Casado em segundas núpcias com Ana Bolena, Henrique VIII somente
teve um descendente masculino com a terceira esposa, tendo chegado ao sexto
casamento. Edward VI, o descendente masculino, que era protestante, morreu
adolescente, com apenas 15 anos.
Com Henrique VIII, as mudanças na igreja inglesa não foram muito
abrangentes, começando pela substituição do papa pelo rei como cabeça da
igreja, incluindo a eliminação da transubstanciação, da comunhão em uma só
espécie, do celibato clerical, dos votos de castidade para leigos, das missas
particulares, da confissão auricular, além de outras. Não foram mudados dogmas
maiores.
Com Eduardo VI (1547-1553), a influência dos partidários de uma reforma
profunda da igreja inglesa se tornou mais forte e outras mudanças aconteceram.
Porém, com a morte do rei, assumiu o trono sua irmã Maria Tudor, filha de
Catarina de Aragão, que era de linhagem familiar católica, como já se viu.
Maria assinou o ato de reconciliação da Inglaterra com Roma, anulando as
mudanças de seu pai e irmão, porém teve um reinado curto.
A criação da linha anglicana não transformou a Inglaterra num país
verdadeiramente protestante, pois a Igreja permaneceu católica quanto à
doutrina. Foi somente no reinado de Elisabeth I que a Igreja se firmaria
no caminho da “via média”, entre o catolicismo e o protestantismo,
característica que mantém até os dias de hoje.
Durante a implantação inicial do Anglicanismo, surgiu nas Ilhas
Britânicas um grupo que, por convicções próprias e influência de circunstâncias
históricas, começou a ansiar por mais reformas, querendo ver a Igreja
purificada de todas as heterodoxias implantadas pelo Catolicismo ao longo dos
séculos; trata-se dos “puritanos”, assunto que será discutido no próximo
segmento.
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