20 séculos de Igreja Cristã

20 séculos de Igreja Cristã
do século I ao século XXI

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

25. HENRIQUE VIII E O ANGLICANISMO

“Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmo 51.17)

Não se sabe exatamente quando o cristianismo se estabeleceu nas Ilhas Britânicas, mas é certo que já existia antes do século III, possivelmente a partir de missionários fugidos das perseguições às quais os primeiros cristãos estavam sujeitos. Os primeiros registros da presença cristã nas Ilhas Britânicas foram feitos por Tertuliano, no ano de 208 d.C.; também no Concílio de Arles, realizado em 314 d.C. na França, há registro da presença de três bispos de uma Igreja que existia na Inglaterra sem ligação com a Igreja Romana.
A primeira Igreja Cristã organizada nas Ilhas Britânicas é de origem celta, povo que já habitava a região antes mesmo da invasão anglo-saxônica. Resistindo ao paganismo dos invasores, a Igreja Celta conseguiu manter um cristianismo independente, com organização monástica e tribal, sem relação com a Igreja de Roma e demonstrando alguns hábitos e costumes orientais.
No ano de 595 d.C., o papa Gregório Magno mandou o monge Agostinho, prior do Convento de Santo André, na Sicília, liderando um grupo de monges beneditinos, para converter a Inglaterra ao catolicismo romano. Agostinho foi o primeiro arcebispo da Cantuária (em inglês, Canterbury), sé primaz de referência até mesmo para a atual Igreja Anglicana. Com o tempo, boa parte dos costumes da Igreja Celta assimilou a forma romana do cristianismo implantada por Agostinho nas Ilhas Britânicas.
No século XIV, surgiram João Wycliffe e os seus seguidores, os lolardos, contemporâneos ao “Grande Cisma” da Igreja Católica, marcando uma tradição de profundo apreço pelas Escrituras e questionamento de dogmas e práticas da igreja medieval com base nas mesmas. O assim chamado “pré-reformador” patrocinou a publicação da primeira Bíblia em inglês, que se completou em 1384. Wycliffe afirmava ainda a suprema autoridade das Escrituras, definindo a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos e questionando dogmas católicos, como o papado e a transubstanciação. Mesmo na época da Reforma, ainda havia indícios da presença dos lolardos na Inglaterra.
Ligada à Irlanda, existe ainda a história de Patrício, em cuja vida é difícil separar-se a realidade do mito. Nascido num povoado na Inglaterra em 377 em uma família religiosa e influente, Patrício foi levado de sua casa para viver como escravo na Irlanda. Assim que chegou ao novo país, começou a pastorear ovelhas, tornando-se exímio pastor. Orando constantemente por sua libertação, Patrício, depois de seis anos de escravidão, fugiu para a Gália, entrando para um mosteiro. Sagrado bispo em 432, Patrício pediu para ser enviado como missionário para converter o povo irlandês ao cristianismo. Muitas fadigas, sacrifícios e sofrimentos de toda espécie resultaram em um grande número de conversões. Após trinta anos de pregação, existiam na Irlanda 365 igrejas, além de conventos e escolas. Patrício morreu aos 84 de idade, 34 dos quais como missionário. 17 de março, data da suposta morte de Patrício, é o Dia de São Patrício, comemorado por irlandeses, ingleses e seus descendentes na América, sendo a cor verde e o trevo de três folhas as marcas características do evento.
A história da atual Igreja Anglicana começa com o rei Henrique VIII (1509-1547), embora ele não fosse um reformador, mas alguém levado por motivos mais político-conjugais do que religiosos. Casado com Catarina de Aragão, filha de Isabel e Fernando (os “reis católicos” da Espanha), o rei ansiava por um herdeiro masculino, que ocupasse o trono inglês com sua morte. Com Catarina, Henrique tinha tido apenas uma filha, Maria, e o rei pleiteou junto ao papa a anulação do casamento. Diante da negativa papal, Henrique, até então um católico devoto (a ponto de ter recebido do papa o título de Fidei Defensor, ou "Defensor da Fé", por sua ação contra a reforma protestante em 1521), promoveu a separação entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Católica Romana. A cisão se deu através do Ato de Supremacia, de 1534, que inclusive confiscou todas as propriedades que a Igreja Católica possuía na Inglaterra. Casado em segundas núpcias com Ana Bolena, Henrique VIII somente teve um descendente masculino com a terceira esposa, tendo chegado ao sexto casamento. Edward VI, o descendente masculino, que era protestante, morreu adolescente, com apenas 15 anos.
Com Henrique VIII, as mudanças na igreja inglesa não foram muito abrangentes, começando pela substituição do papa pelo rei como cabeça da igreja, incluindo a eliminação da transubstanciação, da comunhão em uma só espécie, do celibato clerical, dos votos de castidade para leigos, das missas particulares, da confissão auricular, além de outras. Não foram mudados dogmas maiores.
Com Eduardo VI (1547-1553), a influência dos partidários de uma reforma profunda da igreja inglesa se tornou mais forte e outras mudanças aconteceram. Porém, com a morte do rei, assumiu o trono sua irmã Maria Tudor, filha de Catarina de Aragão, que era de linhagem familiar católica, como já se viu. Maria assinou o ato de reconciliação da Inglaterra com Roma, anulando as mudanças de seu pai e irmão, porém teve um reinado curto.
A criação da linha anglicana não transformou a Inglaterra num país verdadeiramente protestante, pois a Igreja permaneceu católica quanto à doutrina. Foi somente no reinado de  Elisabeth I que a Igreja se firmaria no caminho da “via média”, entre o catolicismo e o protestantismo, característica que mantém até os dias de hoje.

Durante a implantação inicial do Anglicanismo,  surgiu nas Ilhas Britânicas um grupo que, por convicções próprias e influência de circunstâncias históricas, começou a ansiar por mais reformas, querendo ver a Igreja purificada de todas as heterodoxias implantadas pelo Catolicismo ao longo dos séculos; trata-se dos “puritanos”, assunto que será discutido no próximo segmento. 

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