20 séculos de Igreja Cristã

20 séculos de Igreja Cristã
do século I ao século XXI

segunda-feira, 12 de março de 2018

ÍNDICE DOS FASCÍCULOS


Introdução
1.       A Igreja em Atos
2.       Os apóstolos e a Igreja
3.       Viagens de Paulo
4.       A Igreja na Era Apostólica
5.       Pais da Igreja
6.       A Igreja e a Perseguição
7.       Constantino, um Divisor de Águas
8.       O Legado de Constantino
9.       Canonização da Bíblia
10.   A Igreja e os Bárbaros
11.   Evangelizando os Bárbaros nas Ilhas Britânicas
12.   Evangelizando os Bárbaros no Continente Europeu
13.   Judaísmo, Cristianismo, Islamismo
14.   A Igreja e o Império
15.   A Igreja e a Vida Monástica
16.   A Igreja e a Heresia
17.   Heterodoxias do Catolicismo
18.   A Igreja, as Cruzadas e o Papado
19.   A Igreja e os Pré-reformadores
20.   A Igreja e as Mudanças do Século XV
21.   31 de Outubro de 1517: o Evento
22.   O Luteranismo
23.   Zurique e o Radicalismo
24.   Genebra e o Calvinismo
25.   Henrique VIII e o Anglicanismo
26.   O Puritanismo
27.   Trento e a Contra-reforma
28.   A Escócia e o Presbiterianismo
29.   Amsterdam e os Batistas
30.   Denominacionismo e a Unidade da Igreja
31.   Puritanos na Nova Inglaterra
32.   Expansão do Cristianismo na América do Norte
33.   Expansão do Cristianismo nas Américas Central, do Sul e no Canadá
34.   Protestantismo como Revolução
35.   A Igreja e os Inimigos da Fé
36.   O Pietismo e os Morávios
37.   Wesley e o Metodismo
38.   “Amplia o lugar da tua tenda” – as Missões Protestantes
39.   Os huguenotes: A Reforma na França
40.   A igreja e as Seitas
41.   A igreja e os Reavivamentos Históricos
42.   Os Despertamentos do Século XX
43.   O Pentecostalismo e suas Origens
44.   O Pentecostalismo e a Rua Azusa
45.   O Pentecostalismo em Ondas
46.   A Igreja e a Teologia
47.   A Igreja Católica Ortodoxa
48.   A Igreja e o Ecumenismo
49.   A Igreja e a Cultura
50.   A Igreja e a Pós-Modernidade

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

INTRODUÇÃO

A Igreja, de Atos até nós: este é o panorama que queremos cobrir em cinquenta fascículos, revisitando a história da Igreja Cristã desde o seu início no primeiro século – conforme narra o livro de Atos dos Apóstolos – e chegando até o século XXI. São praticamente vinte séculos, quase dois mil anos, desde que tudo começou. Grandes foram os desafios, inevitáveis as mudanças, mutáveis as circunstâncias que influenciaram a trajetória da Igreja, até que chegássemos aos nossos dias. Para organizar todos os acontecimentos e selecioná-los em apenas cinquenta textos curtos que abrangessem toda a história, foram necessárias muitas leituras, exaustiva pesquisa e seleção de temas que formassem um todo coerente dentro aquilo que pretendíamos atingir. 
E a que resultado queremos chegar? Cremos, como cristão, que este trabalho valerá a pena se o resultado final for edificante para a vida da Igreja como um todo e para a participação individual de cada um na construção do Reino de Deus neste mundo. Grandes serão as dificuldades, já que uma aparente unidade conseguida na Igreja Primitiva iniciada em Jerusalém se perdeu ao longo do tempo. A unidade da Igreja foi uma das últimas preocupações de Jesus Cristo ao deixar este mundo, demonstrada, por exemplo, em sua oração sacerdotal por seus seguidores, tanto os seus contemporâneos no primeiro século, quanto aqueles que viessem a se juntar ao grupo ao longo do tempo. Ele sabia que, face a culturas, povos, tempos e circunstâncias diferentes e tão diversas como aquelas que sobrevieram à Igreja em sua trajetória, que unidade seria uma das características mais difíceis de serem mantidas pelo seu Corpo.
Earl Cairns ensina que a Igreja se desenvolve em dois níveis: existe o Organismo e a organização. O organismo é eterno, perfeito, santo, divino, imutável, absoluto, pois foi edificado pelo próprio Senhor Jesus quando esteve de forma corpórea neste mundo; foi sobre o Organismo que Jesus afirmou que mesmo as portas do inferno não prevaleceriam contra ele. A Organização da Igreja se refere às congregações locais, que são finitas, imperfeitas, humanas, mutáveis, relativas, pois formadas por pecadores como nós enquanto estamos neste mundo. Cremos que, enquanto as organizações da Igreja se dividem numa multiplicidade de tipos diferentes, há unidade no Organismo; é uma unidade através da diversidade: unidade da fé cristã ao longo dos séculos, apesar da diversidade de grupos, dogmas, formas enfim de ser igreja. A centralidade da Igreja na pessoa de Cristo é o segredo para isto; enquanto a Igreja for Cristocêntrica, esta unidade na diversidade será mantida, independentemente de nomes, etnias, culturas e todas as outras diferenças que surgirem. 
Como Organismo, somos o Corpo de Cristo, a Esposa que aguarda a volta do Noivo, e, enquanto o dia de seu retorno não chega, temos que fazer a nossa parte, vivendo e compartilhando a mensagem que ele mesmo ensinou a seus apóstolos, discípulos e seguidores durante o tempo em que aqui viveu como Filho do Homem. É com esta convicção que devemos viver, e também na esperança de seu retorno, repetindo a oração final do Apocalipse conforme João a expressou: “Maranata! Ora vem, Senhor Jesus!”  

APRESENTAÇÃO

A Igreja Cristã começou por volta dos anos 30 do primeiro século, enfrentou cerca de trezentos anos de oposições internas e externas, na forma de perseguições e heresias; cessada a perseguição, passou por um processo de oficialização, tornando-se a religião estatal do Império Romano. A Igreja assistiu à divisão do Império em Oriente e Ocidente, à queda do Império Romano do Ocidente, à romanização dos bárbaros germânicos e à reorganização do governo imperial, na forma de Sacro Império Romano-Germânico. Internamente, a Igreja continuou a enfrentar heresias e a conviver com heterodoxias, ou seja, crenças e procedimentos que não eram praticados pela Igreja Primitiva, na forma de Catolicismo Romano.
Com a ação de reformadores, antes e depois de Lutero, buscou-se restabelecer o caminho trilhado pela Igreja Neotestamentária. Muitos foram os eventos ocorridos em cinco séculos desde a Reforma Protestante e hoje convivemos com uma Igreja Cristã com múltiplas divisões internas e interpretações da Bíblia. 
Em 31/10/2017, o mundo cristão se lembrará dos 500 anos desde que Lutero divulgou suas 95 teses, a gota d'água que fez transbordar o copo da Reforma Protestante. O que ocorreu antes, durante aqueles dias e depois é o assunto de 50 textos que estão aqui publicados. Que eles sirvam para informação, edificação e desafio para a vida de todos os cristãos que deles tomarem conhecimento.

RICARDO SIMÕES ROCHA

50. A IGREJA E A PÓS-MODERNIDADE

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9)

Ovídio, poeta romano do início da Era Cristã, disse: “Os tempos estão mudando e nós mudamos com eles.” Com os tempos, mudam-se também as eras históricas, cada uma com seu centro unificador filosófico, organizando o entendimento do mundo. Na Idade Média, existiu um teocentrismo eclesiástico com o Catolicismo. No início da Modernidade, com o Protestantismo, o centro passou a ser o homem (humanismo) e depois a razão humana (racionalismo). Na Pós-Modernidade, não há centro definido, tudo é excêntrico. O início do Pós-Modernismo é considerado por alguns a partir do final da II Guerra Mundial, por outros com a queda da União Soviética e do Muro de Berlim, além de outras possibilidades.
As mudanças pelas quais passou o mundo ocidental entre os séculos XIV e XVI foram paulatinas, levando o Ocidente a deixar o medievalismo e a entrar na Modernidade. Agostinho de Hipona (354-430) escreveu na Antiguidade: "Cogito ergo sum" (Penso, portanto sou). Na Idade Média, a teologia cristã afirmava que o mundo era um todo ordenado por Deus. Na Modernidade, inspirado em Agostinho, René Descartes (1596-1650) afirmou: “Penso, logo existo”. Criaram-se assim as bases da ciência moderna, definindo-se o modo como o ser humano encara o pensamento e a existência. Opondo o teocentrismo medieval ao uso da razão como fonte do saber, criou-se o método cartesiano do bem pensar. O raciocínio humano desenvolveu a ciência, permitindo-lhe desenvolver o avanço tecnológico atual. Partindo-se do Racionalismo, surgiu o Iluminismo, estimulando o questionamento, a investigação e a experiência como formas de conhecimento da natureza, sociedade, política, economia e do ser humano. Opondo-se ao absolutismo, criticavam os iluministas os privilégios da nobreza e do clero católico, embora não duvidassem da existência de Deus. Defendiam a liberdade na política, na economia e na escolha religiosa e queriam a igualdade de todos perante a lei. Partindo da ideia da educação para todos e buscando reunir todo o conhecimento até então existente, foi criada a “enciclopédia”, tendo a primeira obra 35 volumes impressos na segunda metade do século XVIII
A Revolução Francesa de 1789 rompeu os domínios político, social, institucional, legal e religioso, provocando a expulsão dos monges de seus mosteiros, com perda de arquivos, bibliotecas e centros de vida intelectual erudita. O Catolicismo foi perseguido e a França foi deixando Deus de lado, fato mantido até a sociedade francesa de hoje.
Com o avanço promovido pela razão e pela ciência humana, criou-se no mundo ocidental uma expectativa de que todo aquele processo conduziria a sociedade e o mundo moderno a uma melhor qualidade de vida, com paz, progresso contínuo e bem-estar para todos. O conhecimento era considerado como preciso, objetivo e bom. 
Com a chegada do século XX, o advento de duas guerras mundiais com milhões de mortos, o holocausto e outros genocídios, a Grande Depressão na economia mundial, a descoberta da energia da bomba atômica, além de outros conflitos, acabaram por destruir o sonho utópico da Modernidade, trazendo a frustração e a falta de perspectiva que ocasionaram a Pós-Modernidade. No dizer de Stanley Grenz, “no mundo pós-moderno, as pessoas não estão mais convencidas de que o conhecimento é inerentemente bom. Ao evitar o mito Iluminista do progresso inevitável, o pós-modernismo substituiu o otimismo do último século por um pessimismo corrosivo”. 
Na Pós-Modernidade, não se confia mais cegamente na razão e na bondade do conhecimento. A verdade absoluta foi substituída por verdades relativas; numa nova cultura mundial pluralista, a diversidade cultural requer um novo estilo de conduta, o ecletismo. Um centro único e respeitado de autoridade, julgando ideias, opiniões e opções de estilo de vida não mais existe: é a heterotopia pós-moderna, em oposição à utopia modernista. Na sociedade atual, a vida é como um filme, onde verdade e ficção se confundem. A televisão parece ser o mais eficiente veículo para disseminação do espírito pós-moderno; a tela – do cinema, da televisão, do computador, do tablet, do celular – demonstra o contraste tradicional pós-moderno entre o eu subjetivo e o mundo objetivo. Criou-se a necessidade de comunidade, com a proliferação das redes sociais, por exemplo. Globalização e urbanização mostram a necessidade pós-moderna da inclusão, que gera dificuldades com a variedade de etnias, culturas, gostos e crenças existentes nos grandes centros urbanos. A geração mais nova tende a ser mais mística e espiritualizada que a anterior – há poucas décadas, expressões de fé demonstradas por artistas ou jogadores eram raras, sendo corriqueiras no mundo atual. Na pós-modernidade, como a verdade é relativa, a convivência entre os antônimos parece mais aceitável: certo ou errado, verdadeiro ou falso, bem ou mal, céu ou inferno, Deus ou o Diabo são opostos que dependem da verdade de cada um. No aspecto espiritual, é preciso desenvolver tolerância religiosa, resignação perante diferenças ideológicas ou opiniões distintas num pluralismo religioso. Sem um conteúdo cognitivo, a religião torna-se apenas uma experiência mística subjetiva.
Com a ênfase pós-moderna, a Igreja precisa inserir o homem em sua comunidade local, vivenciando o evangelho em relacionamentos integrais, autênticos e terapêuticos. Inclusivismo, relativismo, conformismo com o conceito de "politicamente correto", ou seja, a aceitação daquilo que a sociedade local considera como correto, são alguns dos adversários, por vezes sutis, que a pós-modernidade tem levantado contra a fé cristã. Existem quatro perguntas filosóficas fundamentais para a vida: “1. Quem sou eu? 2. Por que estou aqui? 3. O que está errado no mundo? 4. Como podemos consertar o que está errado?" Cada era histórica tem, de certo modo, lidado com essas dúvidas e encontrado suas respostas para as mesmas. Independentemente disso, é preciso que tenhamos em mente a cosmovisão cristã do problema. A Bíblia nos autoriza a dizer que eu sou um pecador e estou aqui neste mundo por obra e graça de Deus; o que está errado com o mundo é o pecado, que afastou o homem de Deus, mas podemos consertar o que está errado mostrando ao mundo o caminho que o próprio Deus preparou para a reparação do erro: o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, que nos purifica de todo o pecado. A pregação do evangelho como caminho individual de reconciliação com Deus tem feito sentido em qualquer época histórica vivida e continuará fazendo na Pós-Modernidade. O evangelho continua sendo a resposta para os anseios da geração atual. Nossa missão como discípulos de Cristo e veículos do Espírito Santo consiste em viver e expressar as boas novas eternas de salvação, de modo que a nova geração possa compreendê-las. Na Modernidade, os evangélicos do século XX empenharam-se com muita energia na tarefa de demonstrar a credibilidade da fé cristã a uma cultura que glorificava a razão e deificava a ciência. Tal tarefa precisa continuar perante o mundo com as diferenças pós-modernas do século XXI.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

49. A IGREJA E AS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

“Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. (João 17.14-16)

Cristo pediu ao Pai que não tirasse os seus discípulos de um mundo ao qual não pertenciam, mas que os livrasse do mal. Jesus era judeu, assim como seus primeiros seguidores. A Igreja nasceu, pois, dentro de uma cultura judaica, numa província dominada pelo Império Romano. Ao se expandir para fora da Judeia, a Igreja começou a conviver com outras culturas, inicialmente com a greco-romana e, com o passar do tempo, com outras situações culturais diferentes. Como pregar o evangelho, nascido à sombra do judaísmo, para pessoas de costumes tão diferentes?
Roland Bainton, professor de história eclesiástica de Yale, afirmou: “Quando o cristianismo se leva a sério, ele deve renunciar ao mundo ou então dominá-lo”. A primeira atitude foi característica do cristianismo medieval; através da vida nos mosteiros, o catolicismo incentivava o cristão a renunciar ao mundo. A segunda opção dominou o pensamento dos reformadores. A verdadeira tarefa da vida cristã está nas cidades, nos mercados e nas câmaras de comércio do mundo secular e não no isolamento da cela monástica. A transição do monastério para o mercado, no entanto, foi perigosa, pois o cristão passou a conviver diretamente com a cultura que o circundava. Na sua interação com o mundo da cultura, a Igreja tanto influenciou quanto foi influenciada. Cultura constitui um significado complexo, que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano, não somente em família, mas também por fazer parte de uma sociedade mais ampla da qual é membro. 
Em 1951, Richard Niebuhr escreveu “Cristo e a Cultura”, no qual procura discutir a relação entre Cristianismo e civilização. Cristo é perfeito e sem pecado; se a cultura é criada pelo homem, desde que os seres humanos são imperfeitos e pecadores, como pode Cristo se misturar com a imperfeição? Baseados nas posições iniciais de Niebuhr e em Ronaldo Lidório, no seu artigo “Crescendo em fé e missão” (revista Cristianismo Hoje), vamos tentar entender o problema.
Segundo o autor, o evangelho é inicialmente cultural, pois foi revelado à humanidade, em seu tempo e contexto, inserido em uma cultura própria. A posição supracultural do evangelho de Cristo permite que, estando acima da cultura, o evangelho se manifeste, defina e explique a cultura humana. O evangelho pode também ser encarado como intercultural, ao possibilitar que pessoas de diferentes culturas sejam um só corpo em Cristo Jesus. Torna-se ele multicultural, já que é destinado a todos os povos, línguas, tribos e nações. Assume o aspecto transcultural porque deve ser transmitido de uma cultura a outra. Finalmente, ele é contracultural, ao confrontar o homem em sua própria cultura, vida e história. As posições podem ser encontradas não todas ao mesmo tempo, mas em determinados momentos específicos da história da Igreja, como a contracultural, por exemplo, ao observarmos o monasticismo católico, a posição dos anabatistas iniciais e de certos movimentos pietistas.
O tema é amplo e tem múltiplos aspectos a serem considerados. Por isso, vamos focalizá-lo principalmente em relação à arte e seu envolvimento com a Igreja Cristã. Arquitetura, escultura, pintura, literatura, música, teatro e cinema têm estado presentes na atividade da Igreja, em situações que variam desde uma aceitação e uso plenos até momentos de aversão total a elas. Veja-se, por exemplo, a posição de Martinho Lutero sobre a música: “Depois da palavra de Deus, a música merece o mais alto louvor. Não acredito que todas as artes devam ser removidas nem proibidas por causa do evangelho, como sugerem alguns fanáticos. Ao contrário, veria com alegria todas as artes, especialmente a música, no culto a ele que as deu e as criou”. No entanto, seu contemporâneo Zuinglio baniu-a totalmente do culto, mandando até construir uma parede em uma catedral para isolar o órgão da visão dos devotos.
A pintura no Catolicismo trazia à vida didaticamente o drama da liturgia, suplementando-o pelas imagens. Com o aparecimento do protestantismo, houve uma ruptura com o passado: iconoclastia, destruição de relíquias e altares, vestes clericais rasgadas e outras manifestações acabaram com muitas obras artísticas.
Sobre a arte da palavra, afirmou o escritor puritano Richard Baxter: “A literatura promove ativamente uma cultura de mentiras, que enfeitiça e corrompe de forma perigosa a mente de jovens e de pessoas vazias”. Áreas como poesia, romance, teatro e outras eram inicialmente repudiadas pelos protestantes, por lidarem com ficção, imaginação, representações da realidade em lugar da verdade do evangelho. Basta lembrar que a palavra grega “hipócrita” era o nome dado aos atores teatrais que escondiam sua verdadeira face atrás de máscaras no palco. As barreiras aos poucos foram caindo, diante de obras como o romance “O Peregrino” de John Bunyan (1572-1631), a poesia de John Milton, bem como os hinos de Bach e outros grandes artistas cristãos. 
Além da arte, existe o esporte, com seu relacionamento com o protestantismo começando no século XIX. No início, o esporte foi encarado como desperdício de tempo, de esforço e uma distração das coisas mais serias. No século XIX, quando a atividade começou a ser vista como aliada da saúde, seu potencial como ferramenta de testemunho cristão e formação social foi revisto. O “cristianismo muscular” começou a tomar corpo quando se constatou que o número de mulheres na igreja era muito maior do que o de homens. Usando-se esportes como o críquete, muito popular na Inglaterra, a igreja procurou atrair homens para suas fileiras. A Associação Cristã de Moços tem ajudado a difundir a ideia “corpo saudável com fé saudável”, indicando o esporte como meio de enriquecimento físico e espiritual. 
Arte, esporte, ciências sociais, o papel social da mulher, a importância da família e tantos outros temas poderiam ser aqui discutidos, num assunto que, como dissemos, é amplo e multifacetado. Hoje já se nota uma preocupação maior da Igreja para estudar e entender o seu relacionamento com as culturas, refletido, por exemplo, na preparação dos missionários para abordarem culturas ainda não alcançadas pelo evangelho. No passado, muitos erros existiram nesse campo, ao entenderem os promotores de missões que o evangelho fazia parte da cultura europeia ocidental, por exemplo, e com ela deveria ser pregado, numa superposição de uma cultura à outra. 
Vivemos em um mundo ao qual não pertencemos espiritualmente. Sobre o assunto, Calvino afirmou: “Temos que atravessar este mundo como se ele fosse um país estrangeiro, relacionando-nos superficialmente com todas as coisas terrenas e recusando-nos a permitir que nosso coração se apegue a elas”. Não é fácil relacionar-se superficialmente com as coisas da terra, vivendo hoje cercado de tanto materialismo, consumismo e busca da felicidade. No entanto, convivemos com a cultura ao vivenciarmos o evangelho, e é preciso entender como podemos lidar com o problema.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

48. A IGREJA E O ECUMENISMO

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim”. (Mateus 24.13-14)


Ecumenismo é um movimento que busca a união de todas as igrejas cristãs, em um apelo à unidade de todos os povos contido na mensagem do Evangelho. Ecumênico, vindo de radical grego, significa "mundial, geral ou universal", tal como o termo católico, que vem do latim. O movimento ecumênico surgiu oficialmente a partir da Conferência Missionária Mundial, realizada em 1910 em Edimburgo, na Escócia, sendo sua principal expressão atual o Conselho Mundial de Igrejas, criado na Holanda em 1948.
Na oração sacerdotal, Jesus orou por seus discípulos ao Pai, “para que sejam um, assim como nós”. Estendeu ainda sua oração a nós, no século XXI, quando disse: “Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”. Jesus desejava unidade para os seus seguidores e sua Igreja.
Coesão, solidariedade e amor fraternal eram marcas iniciais da igreja em Jerusalém, ideais esses que logo foram atenuados por diferentes razões, como o surgimentos de divisões entre judaizantes e helenistas ainda em Jerusalém, entre cristãos latinos e gregos e, mais tarde, entre católicos e protestantes, no século XVI, além de muitas outras cisões ao longo dos séculos.
O movimento de missões mundiais empreendido pelas igrejas protestantes europeias e norte-americanas a partir do século XIX alertou os missionários, trabalhando em diferentes partes do mundo, para a dificuldade de testemunhar do evangelho de Cristo em meio a tantas divisões e competições. Tempos depois, surgiu a reunião de Edimburgo. No entanto, diferenças entre tradicionalismo e liberalismo, por exemplo, tornaram o processo bastante problemático. Aos poucos, questionamentos teológicos mais amplos foram surgindo, tornando o debate mais aberto e radical. O caráter único de Cristo como Salvador e da fé nele como condição indispensável para a salvação foi questionado, entendendo alguns que as outras religiões mundiais também são caminhos válidos para Deus e negando o evangelho de Cristo como o único caminho. O ecumenismo passou a ter uma amplitude ainda maior que a inicial de união cristã.
As missões passaram a ser vistas sob novos ângulos, relativizando-se a importância da Bíblia, de Cristo e do evangelho e entendendo-se a missão da igreja não apenas como reconciliação com Deus, mas de libertação social e política de pessoas e grupos marginalizados das situações de sofrimento e opressão em que vivem. Surgem daí as questões de libertação nacional, de luta das minorias étnicas, raciais ou religiosas, além do envolvimento de movimentos como o feminismo e o homossexualismo.
Visando à união das igrejas cristãs, o ecumenismo tem-se tornado motivo de discórdia e separação, com igrejas que a ele se associam defendendo uma sociedade mais permissiva. Apesar dos desvios do movimento ecumênico majoritário, no entanto, o ideal da cooperação e do testemunho conjunto deve continuar sendo objeto dos interesses e esforços dos cristãos de boa vontade. Todavia, é importante que isso seja feito sem se abrir mão das convicções centrais que caracterizam o cristianismo bíblico.
Desde a Reforma Protestante iniciada em 1517, houve tentativas de reaproximação entre o catolicismo e seus descendentes mais diretos, como anglicanos, luteranos e ortodoxos. Lutero, Calvino e outros reformadores iniciais entendiam a separação do cristianismo como necessária naquele momento, mas criam que o catolicismo poderia ser convencido a discutir divergências, anulando a cisão. No entanto, com o Concílio de Trento, Roma fechou as portas para que tal acontecesse. No século XX, houve novas tentativas de reaproximação, com reuniões e grupos criados, culminando com o Concilio Mundial de Igrejas, com sede em Amsterdã na Holanda, em 1948. O Vaticano adotou a ideia e a encíclica "Ad Petri Cathedram", do papa João XXIII (1958–1963) convidava todos os "irmãos separados" a unirem-se à "Igreja Mãe". O Concílio Ecumênico Vaticano II, em seu decreto "Unitatis Redintegratio" no capítulo intitulado "Os princípios Católicos do Ecumenismo", reforçou esse desejo.
No portal virtual "solascriptura", o texto “Os perigos do ecumenismo”, escrito pelo pastor Waldir Ferro, afirma: “Uma igreja acostumada a prevalecer, não pela razão, mas pela imposição de uma religião estatal, desde o tempo de Constantino em 313, nunca pôde ver com bons olhos a perda de influência e de poder”. Segundo o ex-padre Anibal Pereira Reis em seus livros “O Ecumenismo” e “O Ecumenismo e os Batistas”, a mudança de atitude do catolicismo romano para com as demais igrejas, numa tentantiva de reaproximação, data da tendência de o estado laico assumir as escolas públicas, bem como do desenvolvimento da mídia, (jornais, revistas, rádio, TV e modernamente internet), tornando-se ela formadora de opinião. Como a igreja queria manter sua influência junto à juventude, a atitude de oposição e conflito com os evangélicos e seus líderes foi mudada por orientação de Roma. Treinamento foi dado aos padres a partir dos anos 1960, e a igreja buscou tornar-se mais acessível ao povo e aos pastores. Trabalhos em conjunto na sociedade e ajuntamentos de cunho religioso, os “cultos ecumênicos”, passaram a ser promovidos, com o representante católico colocado em posição superior aos demais, como representante da "igreja mãe".
Dogmas ou doutrinas sobre o pecado, a salvação, o Espirito Santo, a igreja e outros temas têm sido obstáculos para que movimentos ecumênicos realmente prosperem, pois, após as heterodoxias introduzidas no cristianismo pelo catolicismo, após os movimentos reformadores da igreja que resultaram em um grande número de igrejas que interpretam a mesma Bíblia de forma diferente, após o surgimento do pentecostalismo mais recentemente, (o qual dividiu a igreja em duas partes, quais sejam, os carismáticos de um lado e os tradicionais do outro), é preciso que o cristão, seja da igreja que for, busque fortalecer sua fé e conhecer as bases da sua crença, nunca deixando a Bíblia de lado, mas buscando nela a verdade personificada no próprio Senhor Jesus Cristo. Além disso, cremos que o que se deve buscar hoje é uma “unidade na diversidade”, mantendo cada grupo o que lhe é peculiar, mas atendo-se à essência do cristianismo, sem a qual ele não existe. Não é fácil definir-se o que é essencial e o que é acidental na fé cristã, assim como não se devem julgar os diferentes grupos dentro do cristianismo, separando-se o joio do trigo. A Igreja precisa continuar, mesmo reconhecendo que, no século XXI, há muito joio pregando o evangelho, assunto que proximamente deverá ser abordado.

47. A IGREJA CATÓLICA ORTODOXA

“Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor”. (João 10.16)


A Igreja Católica Ortodoxa é uma comunhão de igrejas cristãs autogovernadas, herdeiras da cristandade no Império Bizantino, que reconhece o primado do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla desde que a sede de Roma deixou de seguir a ortodoxia, segundo informa o portal virtual da organização. A cisão com Roma ocorreu no século XI.
Tudo começou em Bizâncio, uma cidade da Grécia Antiga que, segundo Eusébio de Cesareia, foi fundada por Bizas em 658 a.C.; os romanos latinizaram o nome para Byzantium. A cidade veio a se tornar o centro da parte Oriental do Império Romano que falava grego, da Antiguidade até a Idade Média. Foi nessa região que Constantino criou Constantinopla, a 2ª Roma. A cidade localizava-se em um ponto de cruzamento entre dois continentes, posição de vital importância comercial, cultural e diplomática, a qual lhe permitia controlar as rotas que ligavam a Ásia à Europa, assim como a passagem do mar Mediterrâneo para o mar Negro. Quando a cidade caiu na mão dos turcos em 1453, Constantinopla tornou-se a capital de outro estado poderoso, o Império Otomano, com o nome de Istambul, sendo até hoje a maior e mais importante cidade da atual República da Turquia.
Quando a Grécia passou a fazer parte do Império Romano, os historiadores costumam afirmar que Roma conquistou Atenas pela força das armas, mas foi conquistada pela cultura grega. Na verdade, mesmo a imposição do latim como língua oficial foi mais efetiva na região ocidental, a partir de Roma, do que na região oriental, começando por Atenas. A igreja cristã, tendo surgido na Judeia, no interior da parte oriental do Império, aos poucos foi-se espalhando por todas as regiões, atingindo também a parte ocidental. No entanto, no decorrer dos séculos, as diferenças dentro do catolicismo que surgia se fizeram sentir entre os setores ocidental e oriental. Já no final do século III, Diocleciano havia criado o quadrunvirato, ou seja, o governo de dois “augusti” e dois “cesares”, cada dupla para dirigir o império na parte ocidental e na parte oriental. Constantino, conforme já foi dito, criou Constantinopla, que acabou sendo a capital do Império Romano do Oriente, sobrevivendo a Roma após a queda da cidade diante da invasão dos bárbaros germânicos. A divisão política oficial do Império Romano entre Ocidente e Oriente ocorreu em 395, com o imperador Teodósio. As Igrejas Católicas Ocidental e Oriental conviveram com diferenças durante séculos, vindo a se separar política e eclesiasticamente no século XI, em 1054.
Existem diferenças entre o Catolicismo Romano e o Ortodoxa. A Igreja Ortodoxa não aceita a primazia nem a infalibilidade do bispo de Roma, o Papa, conforme definidas pela Igreja Católica Romana. O Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, pela doutrina romana, procede do Pai e do Filho, conforme definido no Concílio de Niceia, enquanto que o Espírito Santo só procede do Pai para os ortodoxos. A Igreja Ortodoxa não admite a existência do purgatório nem do limbo, bem como não aceita as indulgências, a gota d’água que fez transbordar o copo na Reforma Protestante. A Igreja Romana sempre defendeu a imaculada conceição de Maria, enquanto os ortodoxos aceitam sua concepção com o pecado original. Existem diferenças na celebração da missa, bem como nas tradicionais devoções da Igreja Católica Romana; a Igreja Ortodoxa não realiza certas comemorações, como a de Corpus Christi, do Sagrado Coração de Jesus, a cerimônia da Via Crucis, o culto ao Imaculado Coração de Maria, ao Rosário e outras. Enquanto os católicos romanos veneram imagens, os ortodoxos só aceitam ícones nos templos.
Além disso, os sacerdotes ortodoxos têm liberdade de optar entre o celibato e o matrimônio, enquanto os sacerdotes católicos são celibatários por dogma. A Igreja Ortodoxa reconhece o primado do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla desde que a sede de Roma deixou de seguir a ortodoxia. Ela reivindica ser a continuidade da Igreja fundada por Jesus, considerando seus líderes como sucessores dos apóstolos. No seu conjunto, a Igreja Ortodoxa ("igreja da doutrina correta", significado do nome) é a terceira maior confissão cristã, contando, em todo o mundo, com aproximadamente 250 milhões de fiéis, concentrados sobretudo nos países da Europa Oriental, sendo as mais importantes as Igrejas Ortodoxas Grega e a Russa.
No século VIII, Roma colocou-se sob a proteção do Sacro Império Romano-Germânico, enquanto Constantinopla estava sob a jurisdição do Império Bizantino. Criou-se assim uma situação em que as Igrejas em Roma e em Constantinopla estavam no seio de dois impérios distintos, fortes e autossuficientes, cada qual com sua própria tradição e cultura. Essa situação continuou até que Constantinopla deixou de ser cristã, invadida que foi pelos turcos otomanos. Perdendo a situação de sede da Igreja Ortodoxa, a partir de então tal posição passou a ser reivindicada pela Rússia, que se considera a 3ª Roma, época na qual seus imperadores adaptaram para a língua russa o título “césar”, passando a “czar”, nos tempos de Ivan, o Terrível. A igreja Ortodoxa, tornada oficial na Rússia, passou a ser dirigida no reino pelo patriarca de Moscou. Essa situação foi interrompida no século XX, com a revolução comunista. Reinstituídos por Stalin em 1943, o Patriarcado e a Igreja ainda sofreriam perseguições sob Khrushchev, que chegou a fechar 12 mil templos. Menos de 7 mil permaneciam ativos em 1982. Com o ateísmo de estado das nações comunistas, a Igreja Ortodoxa sofreu fortemente com perseguição e censura, e não somente na Rússia, mas também na Albânia, na Romênia, além de outros países do leste europeu.
Atualmente, a Igreja Ortodoxa é formada pela comunhão de catorze jurisdições eclesiásticas autogovernadas que professam a mesma fé e praticam basicamente os mesmos ritos, com algumas variantes culturais. O chefe espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla, título mais honorífico que efetivo, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. Desta forma, diz-se que o Patriarca de Constantinopla é o primeiro entre iguais. Para os ortodoxos, o chefe único da Igreja é o próprio Senhor Jesus Cristo. A autoridade suprema da Igreja Ortodoxa na terra é o Santo Sínodo, que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autogovernadas e dos arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem por chamada do Patriarca Ecumênico de Constantinopla. Historicamente, a Igreja Ortodoxa reconhece sete Concílios Ecumênicos: Os dois de Niceia, os três de Constantinopla, Éfeso e Calcedônia.
No Brasil, a Igreja Ortodoxa chegou juntamente com a imigração árabe. A primeira instituição foi edificada em São Paulo, no ano de 1904, sendo que a grande Catedral Ortodoxa foi aberta ao público em 1954, por ocasião da celebração do quarto centenário da cidade de São Paulo.
Os cismas da igreja cristã e as tentativas de volta à unidade inicial no século XX, chamado de Ecumenismo, é o próximo assunto a ser abordado.