20 séculos de Igreja Cristã

20 séculos de Igreja Cristã
do século I ao século XXI

domingo, 14 de fevereiro de 2016

31. PURITANOS NA NOVA INGLATERRA

“Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; o homem, pois, como entenderá o seu caminho?” (Provérbios 20.24)


Conforme já se abordou no fascículo 26, a chegada ao trono inglês de um novo rei, de outra dinastia, vindo da Escócia onde o presbiterianismo surgira, fez com que a esperança por maiores reformas na Igreja anglicana crescesse no meio puritano. James I, dos Stuarts, no entanto, chegou afirmando: "Sem bispo, não há rei". Ele havia convivido com os presbitérios na Escócia e sentira como é difícil para o rei impor seu governo com a ingerência de muitas pessoas. Hampton Court, em 1604, foi uma decepção para os puritanos, pois eles somente conseguiram a autorização real para a impressão de uma nova versão bíblica, conhecida em inglês como “King James Version”. A velha Inglaterra, com sua opressão religiosa, tanto por parte do rei quanto da Igreja oficial, tornava-se cada vez mais difícil para  puritanos e separatistas, que começavam a ansiar por uma Nova Inglaterra.
Iniciando por Robert Browne, que levou alguns separatistas para a Holanda no final do século XVI, o começo do século XVII viu crescer o número de congregações inteiras que buscavam refúgio em um país com mentalidade mais receptiva e pluralista no aspecto religioso. No entanto, esse pluralismo holandês não ajudou na adaptação de algumas comunidades inglesas, que se sentiam estrangeiras naquela terra e temiam que seus filhos se tornassem por demais seculares. Era o caso da congregação de John Robinson, a qual, partindo de Scrooby, na Inglaterra, estabeleceu-se em Leyden, na Holanda. Membros dessa congregação acabaram por compor parte dos 102 passageiros do Mayflower, no final de 1620. O pacto conhecido como Mayflower Compact foi assinado por 41 adultos antes do desembarque no continente americano, documento no qual acordavam construir no Novo Mundo uma igreja pura, não contaminada pelas falhas do Anglicanismo. Numa terra ainda sem governo estabelecido, os puritanos poderiam criar um que refletisse as idéias calvinistas. John Robinson, o líder da congregação na Holanda, havia dito: "Eles sabiam que eram peregrinos". Como a Holanda não tinha sido sua terra prometida, talvez a América pudesse ser.
Esses novos "filhos de Israel", no entanto, encontraram na Nova Inglaterra um ambiente de sofrimento: fome, frio e doença dizimaram a pequena colônia, sendo que metade dos pioneiros não resistiu ao primeiro inverno. Os sobreviventes, contudo, dedicaram-se ao trabalho e conseguiram uma boa colheita no verão seguinte. A celebração do Thanksgiving, o Dia da Ação de Graças, começou naquela ocasião. À cidadezinha fundada numa verde colina deram o nome de New Plymouth.
Desde o início da colonização, a colônia possuía um governador e um conselho – cujos membros eram eleitos ou reeleitos a cada ano por toda a comunidade – regida por leis restritas, notadamente no que se referia a posturas morais. Começando pela baía do Massachusetts, estabeleceu-se então a Nova Inglaterra, que teve John Winthrop como seu primeiro governador. Ainda na viagem, Winthrop havia declarado: "Nós devemos agir nessa empreitada como um só homem, devemos alegrar-nos na companhia dos nossos, divertir-nos juntos, chorar juntos, trabalhar e sofrer juntos, tendo sempre presente no espírito a missão de nossa comunidade, na qual todos devem ser como membros de um mesmo corpo".
Além das características já apontadas anteriormente, no puritanismo americano, Igreja e Estado trabalhavam juntos buscando o consenso. Todas as decisões deviam ser unânimes, fato que provocava debates intermináveis. Mas, uma vez obtido o consenso, os puritanos não contestavam a decisão tomada, convencidos de que "Deus esclarecera suficientemente os pastores e os magistrados de seu próprio povo para que estivessem preparados para governar com base na certeza e na verdade". Eram passíveis da pena capital os blasfemadores, os feiticeiros e feiticeiras, os adivinhadores, quem cometesse homicídio ou bestialidade, bem como os pederastas, os adúlteros, os ladrões, aqueles que davam falso testemunho e os conspiradores. O repouso do sabbat (como eles chamavam o domingo) deveria ser rigorosamente respeitado e voltado às atividades espirituais. "Não podemos obrigar ninguém a ser crente - afirmavam os teólogos puritanos - tanto quanto não podemos forçar uma pessoa livre a renunciar a uma convicção". Apesar da separação relativa entre Igreja e Estado e o cuidado com a liberdade de consciência, os puritanos se mostravam intolerantes àqueles que não pensavam como eles, por medo de um caos social.
Entre 1630 e 1640, em ondas sucessivas, cerca de 20 mil ingleses desembarcaram no Massachusetts. Do Maine ao Connecticut, comunidades foram aparecendo, dedicando-se à caça, à pesca e à agricultura. Indústrias começaram a crescer, especialmente a da pesca. Estaleiros foram criados; pequenas cidades se desenvolveram, povoados costeiros, como Salem e Charlestown, se transformaram em portos, nos quais negociantes comerciavam com a Europa e as ilhas do Caribe. Boston, centro do governo de Massachusetts, mostrava prosperidade em suas múltiplas atividades.
Educação sempre foi uma área muito importante na formação das novas gerações puritanas do Novo Mundo. Em 1636, foi fundada perto de Boston a Universidade Harvard. Três anos depois, uma tipografia se estabelecia na região. O estilo de vida da Nova Inglaterra não somente se impôs aos recém-chegados, mas também ganhou outras regiões onde se disseminavam os cristãos.
Novas colônias se estabeleceram e cada uma delas se esforçou para preservar sua independência, no plano religioso ou político. Assim, a de Rhode Island – formada pelas cidades de Providence, Portsmouth, Newport e Warwick – possuía uma autorização da coroa inglesa que a tornava uma pequena república independente. Os colonos de Connecticut, em 1639, redigiram as Ordens Fundamentais do Connecticut, a primeira constituição escrita na América e no mundo ocidental.
“Nós, cujos nomes se seguem, leais súditos de nosso soberano senhor Jaime, pela graça de Deus, rei da Grã-Bretanha, da França e da Irlanda, defensor da fé, tendo realizado, para a glória de Deus, a difusão da fé cristã e a honra de nosso rei e de nosso país, uma viagem para estabelecer a primeira colônia na parte norte da Virgínia, pelo presente, realizamos solene e mutuamente, diante de Deus e de cada um de nós, uma aliança e a constituição de um corpo político civil para nos garantir uma ordem e uma proteção maiores, e a busca dos objetivos precedentemente citados...” Neste trecho do Mayflower Compact assinado pelos pioneiros, notamos a obediência puritana ao Rei e à Igreja Anglicana, da qual faziam parte, embora ela os perseguisse. Apesar da sujeição à lei britânica, no entanto, os puritanos e demais imigrantes encontraram no Novo Mundo condições para a criação de uma nova realidade, permitindo grande expansão do protestantismo, muito maior do que a experimentada no Velho Continente, assunto a ser abordado no próximo texto.

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